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  O senhor que descobriu o sapo que há em nós  
José Teixeira é biólogo. Cresceu profissionalmente com rãs, sapos, tritões, salamandras e estes, tantas vezes mal amados, têm em José um defensor. O seu gosto por estes animais nasceu depois de participar num projecto de investigação sobre a Salamandra-lusitânica. Os resultados viriam a atestar a importância das Serras de Valongo para a sobrevivência deste esguio anfíbio exclusivamente ibérico. Actualmente, já a caminho do seu segundo pós-doutoramento, José é como os anfíbios - um todo-o-terreno. Coordena o CIBIO-DIV, uma unidade do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto que tem como objectivos aproximar as ciências biológicas das pessoas e vice-versa.
     

Para começar diz-nos: se fosses um animal qual gostarias de ser?
(sorrisos) Ui, humm. Talvez uma águia, pela liberdade de movimentos e porque poderia voar. Para ser mais preciso atrai-me a ideia de uma águia-pesqueira, que, além de viver em sítios idílicos, pode sempre dar uns bons mergulhos…. O meu kin do calendário maia é “águia planetária azul” e também não soa mal…
 
Confessa-nos também uma coisa que gostes e uma que detestes...
Gosto de conhecer novas realidades e de aprender com as diferenças. Não gosto nada de hipocrisia nem estupidez.

Fala-nos resumidamente do teu percurso…
Bem, estou ligado ao grupo que agora constitui o CIBIO - Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto - desde 1996. Tenho feito investigação principalmente sobre anfíbios. Durante a faculdade - no curso de Biologia na Faculdade de Ciências da UP - ganhei o gosto pela biologia de campo com as aves de rapina do Douro Internacional, mas o projecto sobre Salamandra-lusitânica que participei no âmbito de um projecto Life fez com que eu “descobrisse” os anfíbios e fizesse mestrado, doutoramento e pós-doutoramento com este grupo de vertebrados. Actualmente coordeno a Unidade de Divulgação da Biodiversidade do CIBIO, que tem como objectivo aproximar a ciência das pessoas e comunicar os resultados da investigação sobre biodiversidade.
 
Fazes parte do Comité Português para Biodiversidade. Em que consiste?
O Comité Português para Biodiversidade foi criado sob a égide da Comissão Nacional da UNESCO e tem como objectivo dinamizar, em Portugal, o Ano Internacional da Biodiversidade 2010. Tenta centralizar a informação e coordenar as iniciativas das diferentes entidades, e naturalmente contribuir para divulgar a importância da biodiversidade e da sua conservação.

Achas que é importante assinalar esta efeméride?
Sim, é importante como uma chamada de atenção das pessoas para a perda da biodiversidade e para as consequências que daí podem resultar. A actual crise da biodiversidade só tem paralelo na das alterações climáticas: ambas são muito graves e trazem-nos grandes desafios pela frente. Ilustro com um exemplo: tem-se verificado cientificamente um declínio das populações de abelhas, o que coloca em causa a um serviço básico que nos prestam: a polinização das culturas agrícolas. Suspeita-se que os culpados deste declínio possam ser os organismos geneticamente modificados (OGM) e/ou as radiações associadas aos telemóveis. Não há ainda respostas cabais mas alega-se que se as abelhas desaparecerem da Terra a humanidade não dura mais de cinco anos… É importante que a maioria das pessoas comece a perceber que a biodiversidade não é só as espécies emblemáticas mas também os micro-organismos dos solos ou os seres dos oceanos, que nos dão gratuitamente serviços básicos para a nossa sobrevivência.

Os dados actuais sobre o estado dos ecossistemas são pessimistas. Estaremos a tempo de inverter a tendência de perda da biodiversidade?
Na minha opinião, sim, se formos capazes de investir a sério nessa enorme missão. As opções do cidadão comum podem ter grandes efeitos. As pessoas podem por exemplo ter um papel importante ao nível do consumo responsável e da demonstração da sua opinião, e pressionar assim empresas e políticos a seguir novas tendências. Segundo os estudos sociológicos basta 5% da população estar mobilizada para se gerar uma revolução. Temos que continuar a trabalhar - sensibilização, informação, formação, acção - para motivar uma onda de mudança que permita evitar uma catástrofe ambiental, caso contrário inevitável.

A meta estabelecida - travar a biodiversidade até 2010 - foi um fracasso…
É verdade. Acho que não adianta nada estabelecer determinadas metas se não se determinam politicas adequadas para a conservação da biodiversidade. É preciso monitorizar a evolução do estado da biodiversidade, mas acima de tudo, é fundamental intervir de forma mais séria na conservação de habitats e travar a predação insustentada dos recursos naturais.

Em termos globais o que é mais dramático?
Não é fácil começar… O estado dos recursos piscícolas é grave: 75% dos stocks pesqueiros estão sobre explorados ou totalmente explorados. Além disso 30% dos solos agrícolas estão degradados ou erodidos, as florestas a desaparecer, os rios poluídos ou alterados, a população e o seu consumo a crescer, a temperatura a aumentar... E depois não se sabe muito bem o que pode acontecer se desaparecerem determinadas espécies chave dos ecossistemas. Geralmente só se conhecem as consequências depois. Por exemplo, nas costas do Pacífico americano quando a população de lontras marinhas diminuiu, a riqueza em peixe também decaiu significativamente. Essa estranha consequência aconteceu porque os ouriços-do-mar, principal alimento das lontras, não tinham agora quem os controlasse e dizimavam as florestas subaquáticas de algas (kelp), onde os peixes e uma vasta biodiversidade habitava.

O que sugeres aos nossos decisores políticos?
Um maior investimento na promoção do conhecimento e conservação da biodiversidade. O ICNB - Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade deve voltar a ter um papel mais activo. Nos últimos anos reduziu-se a investigação, os projectos de conservação no terreno, os planos de acção. Tem que haver mais mecanismos oficiais de financiamento para a conservação e divulgação da biodiversidade. Neste momento praticamente só existem alguns fundos europeus.

Uma das actividades que coordenaste recentemente foi a exposição “Anfíbios: uma pata na água outra na terra” que esteve patente ao público no Jardim Botânico do Porto. Porque assumiste esta missão de “apresentar” os anfíbios ao público?
Os anfíbios são o grupo de vertebrados terrestres mais ameaçado do planeta e encontram-se entre os menos conhecidos e apreciados pela população. Algumas ameaças são comuns aos outros grupos - destruição de habitats, monoculturas florestais, poluição da água, proliferação de doenças - mas os anfíbios têm várias características biológicas que os tornam particularmente sensíveis a alterações do ambiente.

Que características são essas?
Têm a pele nua e permeável, precisam do meio aquático para a reprodução e do terrestre para a vida adulta, o que os torna duplamente sensíveis a alterações do meio, e também têm baixa mobilidade, quer dizer, se sofrem um impacto num local não podem mudar-se facilmente.

Mas a questão que muitas pessoas se devem colocar é “o que tem a minha a vida a ver com a dos sapos, das rãs, das salamandras…?
Os anfíbios têm um papel muito importante na manutenção do equilíbrio dos ecossistemas. Por um lado, alimentam-se de insectos e outros invertebrados, contribuindo para o controle de algumas pragas agrícolas e insectos transmissores de doenças. Por outro lado, são uma fonte de alimento para peixes, répteis, aves aquáticas e alguns mamíferos. Assim, o declínio ou desaparecimento destes pode desequilibrar o ecossistema, levando ao aumento descontrolado de alguns insectos ou à redução em cadeia das suas espécies predadoras. Além disso, do ponto de vista tecnológico e económico os anfíbios estão a ser estudados para desenvolvimento de medicamentos para combater a doença de Alzheimer, o cancro, a SIDA, para analgésicos, para fortalecer os batimentos cardíacos. Por exemplo está a ser estudada uma substância produzida naturalmente por um anfíbio que tem uma capacidade analgésica 200 vezes superior à da morfina mas que não causa habituação. Estuda-se também alguns anfíbios pela capacidade de regeneração dos tecidos, outros pela capacidade de sobreviver à congelação, etc.. Qualquer uma destas investigações pode ter um impacto marcante na medicina.

Que outras acções estão em curso para sensibilizar as pessoas para a importância dos anfíbios?
Em parceria com a Naturlink e o SAPO, o CIBIO-Div lançou a campanha NaturSAPO que pretende investir no conhecimento e sensibilização da população para estes animais muitas vezes associados a mitos e crenças sem sentido. Vamos actuar através de uma exposição itinerante, de um canal temático no portal Naturlink, do programa de educação ambiental “Charcos com Vida” dirigido para a exploração pedagógica dos charcos pelas escolas de todo o país, que irá arrancar em Setembro, e de palestras e seminários técnicos. Será ainda dada uma especial atenção à conservação de algumas áreas particularmente importantes para os anfíbios, através da definição de uma rede de micro-reservas a nível nacional, com o apoio de várias entidades privadas. Mas não queremos trabalhar apenas o tema dos anfíbios. Temos várias actividades e projectos em curso para a compreensão, observação ou sensibilização de outros grupos de seres vivos, da biodiversidade em geral e da sua evolução.

Já nos disseste que “acordaste” para os anfíbios com um estudo que fizeste sobre a Salamandra-lusitânica. A região do Porto é importante para os anfíbios?
Sim, aqui podemos encontrar 13 das 17 espécies de anfíbios que existem em Portugal. As Serras de Valongo têm uma das maiores populações reprodutoras conhecidas de Salamandra-lusitânica de toda a Península Ibérica. E no Mindelo existem várias espécies típicas da região mediterrânica que têm nesta zona o seu limite de distribuição a norte da península, como o Sapinho-de-verrugas-verdes e o Sapo-de-unha-negra.

E que valores naturais destacas na área metropolitana?
Desde logo as áreas naturais da Serra da Freita, das Serras de Valongo e o Litoral de Vila do Conde e Reserva Ornitológica do Mindelo, mas também algumas áreas menos conhecidas que o CIBIO inventariou num estudo sobre a Rede de Parques da Área Metropolitana do Porto. Muitas destas áreas são “ilhas de biodiversidade” dentro da malha urbana e outras são corredores (principalmente os rios) que unem algumas destas ilhas. Estes espaços são aquilo que resta e devem ser motivo de orgulho e ser usados como espaços demonstrativos, para a educação ambiental.

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