A reserva do Doutor das Rolas
A Paisagem Protegida Regional do Litoral de Vila do Conde e Reserva Ornitológica de Mindelo, em Vila do Conde, é a área natural protegida mais a norte da Área Metropolitana do Porto. É também o espaço que tem a história de protecção mais longa da região e mesmo do País, pelo que a sua classificação em 2009 como Paisagem Protegida Regional pela Assembleia Metropolitana do Porto veio finalmente actualizar o seu estatuto de protecção entretanto “esquecido”.
A história é longa e não vamos contá-la toda aqui mas podemos adir que a Reserva Ornitológica de Mindelo foi fundada em 1957 por Santos Júnior, então director do Instituto de Zoologia Dr. Augusto Nobre (Faculdade de Ciências da Universidade do Porto). Este pioneiro na anilhagem científica de aves em Portugal tomou conhecimento da tradição da caça à rola por rede em Mindelo (proibida em 1948) e logo se lhe afigurou que os "Roleiros de Mindelo" seriam excelentes colaboradores nas suas jornadas de anilhagem. Para cumprir o seu plano pediu que, ao abrigo do regime florestal, se criasse a Reserva Ornitológica de Mindelo, com o objectivo de protecção da avifauna, residente e migratória, permitindo-se novamente a captura de aves vivas. Ao todo anilharam-se ali 65.000 aves de 150 espécies diferentes, merecendo especial destaque as rolas - cerca de 20.000, ainda hoje um “recorde” da Europa.
Mas o tempo passou e, por uma combinação de factores, a Reserva foi sendo esquecida e o seu território sofreu retalhes.
Com a reinstituição, em 2009, da Paisagem Protegida Regional do Litoral de Vila do Conde e Reserva Ornitológica de Mindelo, cuja coordenação da gestão cabe à Câmara Municipal de Vila do Conde, ficou protegida uma importante área com 380 hectares entre a foz do rio Ave e a foz do rio Onda, um pouco mais extensa que a reserva original. Valorizou-se ainda aquilo que não se vê: a história da primeira reserva ornitológica da Europa.
O espaço protegido é um original mosaico de habitats, desde cordões dunares, rochedos, zonas húmidas, bouças e áreas agrícolas, que se dispõe ao longo de uma linha de costa de 8,5 km de extensão. O seu valor natural é atestado pelas inúmeras espécies de aves migradoras e residentes, pela presença de 14 das 17 espécies de anfíbios que ocorrem em Portugal e por espécies de flora dunar que são endemismos lusitanos (só existem espontaneamente em Portugal).
Quanto aos anfíbios destacam-se as presenças do tritão palmado e das populações costeiras conhecidas mais a norte de sapinho-de-verrugas-verdes, sapo-de-unha-negra e salamandra-de-costelas-salientes.
Área de serviço para aves
A Reserva Natural Local do Estuário do Douro mais conhecida por Cabedelo e Baia de S. Paio inclui 54 hectares de ecossistemas de conservação prioritária na Europa como dunas, sapais e lodos intertidais. São os ambientes ideais para funcionar como área de serviço de várias espécies de aves migratórias que encontram aqui “parques de descanso” para se alimentar e repor forças, algumas para se reproduzir. Na Reserva Natural Local do Estuário do Douro estão recenseadas mais de 100 espécies de aves, como o corvo-marinho, a garça-real, a andorinha‐do‐mar, o pilrito, o maçarico‐das‐rochas, o guarda‐rios, o borrelho, o peneireiro e o falcão‐peregrino. A águia-pesqueira pode ser vista esporadicamente e muito raramente avistam-se algumas espécies como o pilrito-de-colete (avistado em 2007), uma ave originária da Ásia, que pode migrar até à Europa no Inverno, mas que raramente chega tão a Sul.
No portal www.avesdeportugal.info enumeram-se os melhores locais para observação de aves, tendo a Reserva Natural Local do Estuário do Douro um destaque na área do Entre o Douro e Minho.
Esta área criada em 2009 é gerida pelo Parque Biológico de Gaia, por delegação da Câmara Municipal de Gaia. Convém referir que esta iniciativa foi precedida, em 2007, pela criação de um refúgio ornitológico nesta área, como consequência de um protocolo estabelecido entre a Administração do Porto de Leixões (entidade com jurisdição na área) e o Parque Biológico de Gaia.
Mais de 500 milhões de anos de história
As Serras de Santa Justa e Pias encerram muitos segredos de um passado muito distante, com mais de 500 milhões de anos. No início do Paleozóico, na altura em que surgiu a primeira explosão de vida no planeta, geraram-se as rochas que posteriormente foram sofrendo processos de transformação até chegar ao registo geológico que encontramos em Valongo nos dias de hoje. Nesse momento o que viria a ser este território estava no fundo do mar e por isso existem actualmente registos fósseis e icnofósseis tão significativos da biodiversidade existente na época (trilobites, graptólitos, braquiópodes, gasterópodes, cefalópodes, bivalves, peixes, entre outros). Convém referir que tudo isto aconteceu cerca de 300 milhões de anos antes de surgirem os dinossáurios na face da terra!
Há cerca de 390 milhões de anos o mar recuou e depositaram-se aqui os últimos sedimentos em ambiente marinho. As forças tectónicas fizeram-se sentir e as rochas de Valongo, apesar de formadas em profundidade, foram expostas à superfície com a ocorrência de uma grande dobra geológica (anticlinal) que hoje é uma marca desta paisagem.
Nas Serras de Santa Justa e Pias há evidências da passagem de comunidades humanas do paleolítico (ex. Casa da Orca), do neolítico (castros) e, bastante mais tarde, dos romanos, que aqui exploraram ouro.
Do ponto de vista da biodiversidade muito pode ser escrito, mas destacamos a Lycopodiella cernua, uma pteridófita que é considerada uma relíquia florística e que na Europa continental só é conhecida nas Serras de Valongo. O feto-de-cabelinho também é uma preciosidade do Holoceno (período dos últimos 11.000 anos, após a última glaciação) que na Europa tem em Valongo um dos seus últimos redutos.
Entre as espécies de animais destacam-se a salamandra-lusitânica, o lagarto-de-água, a toupeira-de-água, a lontra, o bordalo, o ruivaco, o morcego‐de-ferradura‐grande e o morcego‐de-peluche.
As Serras de Santa Justa e Pias estão em processo de classificação como Paisagem Protegida de Âmbito Local, numa iniciativa da Câmara Municipal de Valongo, esperando-se a sua conclusão até ao final de 2010.
Estas três áreas de grande importância para a biodiversidade regional, com algumas características ímpares mesmo no contexto Europeu, são demonstrativos do nosso património geológico, natural e histórico, constituindo espaços educativos privilegiados para crianças, jovens e adultos. Para que os mais pequenos aprendam e os mais experientes reconheçam que a galinha da vizinha não é necessariamente mais bonita que a minha…

Informações úteis:
Paisagem Protegida Regional do Litoral de Vila do Conde e Reserva Ornitológica de Mindelo
Para os que querem conhecer esta zona e não sabem por onde começar o ideal é contactar o Centro de Monitorização e Interpretação Ambiental de Vila do Conde (www.cmia-viladoconde.net) que organiza visitas guiadas e várias actividades de exploração da natureza.
Reserva Natural Local do Estuário do Douro
Para os interessados em conhecer o ideal é contactar o Parque Biológico (www.parquebiologico.pt) e tentar integrar-se em alguma visita organizada. No entanto, a zona é de acesso fácil, permitindo que os curiosos possam caminhar desde a Afurada em direcção ao Cabedelo com uns binóculos na mão e surpreender-se com as espécies que ali podem avistar. Até Agosto deste ano ficarão disponíveis para os visitantes um centro de interpretação e observatórios.
Paisagem Protegida de Âmbito Local das Serras de Santa Justa e Pias (em classificação)
Para conhecer as Serras sugere-se um contacto com o Centro de Monitorização e Interpretação Ambiental de Valongo (www.valongoambiental.com) de modo a integrar-se em actividades e visitas guiadas. Nas Serras existe uma rede de trilhos devidamente sinalizada, bem como um Corredor Ecológico, que interliga o centro da cidade de Valongo às Serras.
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