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  No sofá com o lobo, o mexilhão, o narciso e outros  

Prelúdio: se quando leu a história dos três porquinhos a primeira ideia que lhe veio à cabeça foi "mas... os porcos não falam!" não leia este artigo.
Este ano – 2010 - Ano Internacional da Biodiversidade – as espécies têm estado no centro das atenções. Nesta edição especial fomos entrevistar algumas das celebridades regionais para conhecer melhor a sua vida, os seus medos e os seus projectos até ao final do ano. Entramos na intimidade do Ferrão, do Viera, do Rio, do Narciso, entre outros, e trazemos tudo até si.

       

Depois de pensar um bocado, perdemos os receios e fomos falar com o Ferrão, o Lobo-Ibérico, ali para os lados da Serra da Freita, em Arouca, onde tem a sua residência permanente.

 

Ferrão, o Lobo-ibérico
“Estou farto de ser o mau da fita”

CRE - Bom dia Ferrão, obrigada por nos acolher em sua casa.
Ferrão - Tudo bem, eu não gosto muito de visitas, ainda por cima quando os miúdos ainda são pequenos, mas desta vez abro uma excepção…

CRE - Tem um nome sugestivo.
Ferrão - Pois é, e não é por acaso. É que eu gosto de dar umas boas dentadas… (arreganha os dentes)

CRE - Vamos mudar de assunto…
Ferrão - Olha outra com a síndrome do lobo mau (ri-se). As vossas histórias infantis, o Capuchinho-vermelho, os Três Porquinhos e sei lá que mais, é que me arruinaram a reputação! Estou um bocado farto de ser o mau da fita! Um tipo tem que se defender, controlar o seu território e dar de comer à família…

CRE - Explique-nos porque gosta de viver aqui.
Ferrão - Apesar da crise, aqui vai-se vivendo, vamo-nos adaptando ao que há. Há cursos de água, vamos tendo comida e há pouca vizinhança (humana), com quem geralmente temos chatices. É verdade que quando vamos comer e o prato não chega para todos, temos que recorrer a uma ovelha ou uma cabra dos rebanhos dos vizinhos… Mas também é só uma vez numa lua cheia… e veja, não podemos deixar os miúdos passar fome…

CRE - Vive aqui com quem?
Ferrão - Com a minha companheira, com dois filhos adolescente e com cinco miúdos que nasceram há um mês.

CRE - E a sua família, os seus pais e irmãos?
Ferrão - Não sei. Aos dois anos sai de casa e nunca mais voltei. Eles vivem aqui perto mas cada um fica na sua casa… A minha família mais alargada está toda lá para o norte e em Espanha. Nós estamos aqui mais afastados, a sul do Douro, e às vezes o isolamento não é nada bom… Eu e a Alfa gostávamos que os miúdos pudessem dar-nos netos com sotaque nortenho ou espanhol, mas o rio, as auto-estradas, as grandes povoações, são barreiras intransponíveis. É impossível os miúdos irem até lá para conhecerem outros lobos…

CRE - E conte-nos o que faz no dia-a-dia…
Ferrão - A minha vida não é nenhuma aventura! Passo a maior parte do tempo a patrulhar o meu território, que ainda é extenso, a procurar comida para a família, a dormir e brincar com os pequenos, a ensinar as técnicas de sobrevivência aos mais crescidos… o normal num pai de família. Chego ao final do dia estafado!

CRE - E há alguma coisa que o preocupe?
Ferrão - Preocupa-me muito a crise. Agora há menos comida e o território vai ficando mais pequeno a cada dia que passa, ora para urbanização, ora para agricultura, ora porque há incêndios. Vivemos cada vez com menos recursos. A continuar assim acho que os meus miúdos ainda vão sentir mais a crise…

CRE - E quais são os seus planos até ao final do ano?
Ferrão - O momento alto será em Outubro, quando começarem as aulas de caça dos mais pequenos e pudermos viajar mais. Até lá ficamos por aqui…

Depois de falar com Ferrão, rumamos em direcção ao Rio Paiva, onde vive o Sr. Vieira, o mexilhão-de-rio. Subimos até às zonas do rio onde as águas são mais frescas e ai conhecemos este recatado bivalve, que, apesar de não aparentar, já tem 140 anos.

mexilhão

Sr. Vieira, o Mexilhão-de-rio
“Deram-me como morto”

CRE - Bom dia Sr. Vieira, obrigada por nos receber.
Sr. Vieira - Esta agora, de nada. Eu gosto tanto de visitas…

CRE - Sabe que fiquei confusa… É uma vieira ou um mexilhão?
Sr. Vieira - Nada de dúvidas, eu sou um mexilhão! Mas gosto de viver no rio, gosto da água doce e fresquinha - aqui entre nós, o sal faz-me muito mal à saúde e o médico proibiu-me esses excessos. O nome “Vieira” é só uma alcunha que os meus amigos me puseram há muitos anos atrás.

CRE - Ah, bom. Sabe que eu não fazia ideia de que o Vieira vivia aqui nesta zona e creio que poucas pessoas o sabem...
Sr. Vieira - Pois, é que eu sou bastante discreto. Estou sempre aqui dentro de água e, às vezes, até gosto de me enterrar na areia do fundo. De tal maneira ficava escondido que há uns anos deram-me como morto aqui em Portugal. Acharam que estava extinto, veja lá!

CRE - Mas agora a verdade foi reposta...
Sr. Vieira - Sim, felizmente já rasgaram o atestado de óbito e até são conhecidos vários elementos da minha família. Todos vivem no Norte do país. E, para que não voltemos de vez ao estatuto de “extinto”, o governo português tem um compromisso perante a União Europeia de nos dar a todos boas condições de vida. Temos estado atentos e exigido o nosso direito à habitação.

CRE - Mas Sr. Vieira, você parece muito exigente!
Sr. Vieira - Não sou muito, mas tenho as minhas coisas (riso tímido). Preciso de águas frescas, bem oxigenadas e, principalmente, sem poluição. Não é pedir muito, pois não?

CRE - E é muito falada a relação que você mantém com a truta-de-rio. Quer falar sobre isso?
Sr. Vieira - É um tema que prefiro evitar, mas já que você fala no assunto aproveito para esclarecer o que verdadeiramente se passou. Eu tinha 18 anos, era novo e inexperiente… E estava apaixonado por uma mexilhão-de-rio. Não nos largávamos, estávamos sempre ali ao lado um do outro para tudo! Por isso decidimos avançar para constituir família. A minha companheira teve uma gravidez normal, de 3 meses, e mal “deu à luz”, os miúdos foram a correr fixar-se nas guelras da truta. Olhe, parecia que eram filhos dela, não a largavam. Era ela que os alimentava, os levava a passear… Tivemos um desgosto muito grande, a minha Margarida achou até que eu tinha alguma relação com a truta… Só não se foi embora porque não podia ir longe.

CRE - Que história tão triste…
Sr. Vieira - É. Mas depois percebi que para os nossos filhos as trutas são como um comboio com um vagão-restaurante. Com elas têm alimento garantido e transporte para irem em busca de um lugar para viver quando são mais crescidos.

CRE - Vamos ter de terminar…
Sr. Vieira - Que pena, agora que eu ia começar a falar… Bem, volte sempre!

Sem tempo para mais entrevistas, pois o fecho da edição aproximava-se rapidamente, recolhemos alguns breves depoimentos de outras espécies da AMP…

Narciso, o Martelinho
“Sinto-me um bocado sozinho”.

Vivo aqui na Serra de Santa Justa. Gosto muito de estar junto a zonas com água e não gosto nada de apanhar sol porque me faz mal à pele. Mas não sei se é da falta de sol, tenho-me sentido um bocado deprimido, estou muito sozinho… O ano passado, apesar de estarmos protegidos na lei, os meus companheiros de tufo foram colhidos. Ouvi dizer que foram enfeitar jarras… Será que ainda estão vivos?

Lampreia

Lina, a Lampreia-de-riacho
“Estou à beira de um ataque de nervos”

Ó pá, o que mais me chateia é que me confundam com a outra, com a Lampreia-de-rio. Afirmam por aí que somos iguaizinhas e acho uma falta de respeito pela nossa individualidade, põe-me nervosa. Eu vivo aqui em Espinho, numa das ribeiras da Barrinha de Esmoriz, mas tenho uma amiga que vive no rio Ínha. São os únicos sítios onde conheço outras como eu. Dizem que somos paranóicas porque, quando adultas, deixamos de comer, mas por agora até me sinto bem com este regime… (Olhe, já terminaram a medição?? Ponham-me já na água!)

Rio, o Guarda-rios
“Só gosto de postos altos”

Eu adoro estar lá em cima, em lugares altos, a olhar para o rio à espera que algum peixe gordinho se exponha mais. Se vejo algum saio picado e mergulho a fundo. Não perdoo. A vida por aqui é boa. Eu agora frequento mais o Parque de Serralves, mas em toda a área do Porto há bons sítios para viver. O que eu gosto mesmo de fazer é a patrulha acrobática dos rios. Sempre para cá e para lá a toda a velocidade, como um daqueles aviões do Red Bull Air Race, mas com menos barulho.

 
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