Fomos conversar com Pedro Teiga, coordenador e impulsionador do projecto em Portugal. O encontro foi na Faculdade de Engenharia (UP) entre gigantescas maquetas de rios nas quais se estuda, por exemplo, o que pode acontecer em ambientes reais perante uma cheia, mas sem que a componente natural do rio esteja representada. Nestas maquetas os rios são longos e diáfanos canais de acrílico. Percebemos, no entanto, que Pedro é um engenheiro com uma visão mais complexa: os rios são galerias de vida e as comunidades humanas fazem parte delas. Alguns dias mais tarde, para completar o nosso conhecimento sobre o projecto, acompanhamos Pedro Teiga numa visita exploratória à Ribeira de Silvares, no Mindelo, no âmbito dos Embaixadores dos Rios (www.embaixadadosrios.blogspot.com).
São precisos quatro
O objectivo geral do Projecto Rios é claro: unir pessoas e rios e contribuir para a reabilitação das linhas de água com o envolvimento e responsabilização de toda a sociedade. E pretende atingi-lo de modo igualmente simples. Motivando e apoiando grupos a adoptar e monitorizar um troço de rio ou ribeira com 500 metros.
De acordo com Pedro Teiga, com a aplicação prática deste projecto é possível que os cidadãos aprendam a valorizar a importância das linhas de água e, simultaneamente, implementar uma rede nacional de observação, monitorização ou vigilância com a participação das pessoas. E essa é a novidade do Projecto Rios: um projecto de participação dos cidadãos na geração e conhecimento e melhoria dos cursos de água.
“Mas como é que podemos participar?” É a pergunta que todos fazem. E Pedro repete vezes sem conta que um grupo do Projecto Rios deve ter no mínimo quatro pessoas. Dois para segurar a fita métrica, um em cada margem do curso de água, um para anotar e o outro para fotografar a cena!
Não é tão simples mas é quase: quem estiver interessado em participar neste projecto deve reunir um grupo interessado (até 30 elementos), escolher o troço de rio que irá adoptar, preencher a ficha de inscrição e enviar para o mail da organização.
Um observatório dos rios
Ao inscrever-se, o grupo assume o compromisso mínimo de ir até ao troço de rio adoptado duas vezes por ano (Outono e Primavera) e proceder à medição e registo das características físico-químicas da água, bem como de fazer acções de protecção, uma acção de conhecimento e uma de melhoria do meio. Os dados recolhidos devem ser carregados na base de dados on-line, que pode vir a ser uma espécie de observatório nacional dos rios.
Para recolher os dados cada grupo inscrito recebe uma caixa com materiais - o Kit do Projecto Rios - que inclui lupa, fita métrica, termómetro e outros equipamentos de medição e registo, bem como um conjunto de fichas sobre a fauna, a flora, a geologia, o património etnográfico, entre outras, para auxiliar na recolha de dados.
Além das tarefas mínimas, diz Pedro Teiga, cada grupo “faz o que pode”. Alguns grupos entusiasmam-se de tal maneira nas tarefas de monitorização que Pedro já recebeu telefonemas às dez da noite para lhe dizerem: “vimos uma lontra! vimos uma lontra!”.
Um rio à medida de cada um
As formas de participação no projecto podem ser ajustadas a cada pessoa: um interessado pode juntar-se a um grupo pré-existente ou pode mesmo ser monitor do Projecto Rios. Neste último caso tem que frequentar uma acção de formação de 16 horas e participar em duas saídas de campo por ano.
Os monitores em Portugal já são mais de 250. São eles que ajudam novos grupos a saber o que devem fazer no terreno, pois, afirma Pedro Teiga, “muitas vezes as pessoas querem participar mas inicialmente não sabem identificar o curso de água mais próximo, a abordagem a fazer, como identificar espécies”. Desse modo, os monitores acompanham o novo grupo numa primeira saída ao rio e ajudam a desmistificar a tarefa.
Os grupos do Projecto Rios em Portugal são principalmente escolares, ao contrário do que acontece em Espanha, onde são as famílias, as associações e os grupos de amigos aqueles que arregaçam as mangas para trabalhar pelos rios. Mas em Portugal há alguns grupos pouco comuns, como um grupo feminino do estabelecimento prisional de Custóias e um grupo de pré-escolar de Baltar o que demonstra que o projecto é facilmente moldável a distintas realidades.
Rios que falam
Os rios são corredores de vida. Por serem zonas de transição entre os meios aquático e terrestre e possuírem uma elevada diversidade e quantidade de nutrientes e alimento, albergam desde logo uma maior diversidade biológica. Além disso são contínuos que ajudam a conectar diferentes áreas naturais.Por estes motivos, os corredores ribeirinhos são como oásis para a flora e fauna. Na Área Metropolitana do Porto entre as 21 áreas naturais de maior relevo, dez são corredores ribeirinhos: os rios Febros, Uíma, Inha, Arda, Paiva, Caima, Antuã e Úl, Sousa, Ferreira, Douro, Leça…
Pedro Teiga diz que os rios falam, contam as histórias de uma sociedade. E os nossos rios mostravam até há pouco como lhes tínhamos pouco respeito. Estavam poluídos, negligenciados. Agora parecem apontar o surgimento de uma nova “corrente”: as autarquias investem na sua despoluição e recuperação e os cidadãos envolvem-se na sua guarda em iniciativas como a Corrente do Rio Leça, a Corrente do Rio Ferreira e o próprio Projecto Rios.
Começa a surgir uma maior consciência de que um rio não é apenas um canal de escoamento de água, mas sim uma galeria de vida, dentro e fora de água e espaços de relação entre as pessoas e o seu território.
Voluntariado a 100%
O Projecto Rios entrou em Portugal há cinco anos pelas mãos da Associação Portuguesa de Educação Ambiental (ASPEA), da Associação Portuguesa de Professores de Geografia (APG), Liga para a Protecção da Natureza (LPN) e Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP).
Desde o início que o projecto é totalmente baseado no voluntariado. Obteve apenas um apoio do Ciência Viva para a tradução dos materiais produzidos na Catalunha (Espanha), onde nasceu o Projecto Rios em 1997, para o português. A coordenação é um trabalho voluntário e a produção do Kit foi totalmente suportada por um grupo de voluntários do projecto. Para reaver o investimento é cobrado o valor do custo (48 euros) a cada novo grupo que solicita o seu Kit. Pedro Teiga refere que a equipa do projecto tenta ajudar cada novo grupo a obter o apoio de uma autarquia, empresa ou outro mecenas para financiar o Kit. Tudo o resto é gratuito, diz Pedro Teiga, que não deixa de mostrar algum descontentamento pelo facto de não existir qualquer apoio estatal ao projecto. Compara a situação nacional com a de Espanha, onde o apoio de empresas e do governo autonómico garante financiamento para que o projecto tenha quatro colaboradores contratados a tempo inteiro.
O esforço dos voluntários foi recentemente reconhecido com a entrega a Pedro Teiga e ao Projecto Rios do prémio “Dragona Ibérica” 2010, que premeia os projectos e as pessoas que se empenharam activamente em prol da filosofia da Nova Cultura da Água.
Actualmente existem 175 grupos em acção em todo o país totalizando 87,5 km lineares de rios adoptados. Na Área Metropolitana do Porto concentram-se 27% destes grupos, distribuídos por Vila do Conde (17), Matosinhos (12), Porto (8), Vila Nova de Gaia (4), Valongo (3) e Gondomar (2).
À data de fecho desta edição Pedro Teiga contou-nos que, como resultado da iniciativa Embaixadores dos Rios (www.embaixadadosrios.blogspot.com), promovida pelo CRE_PORTO, se inscreveu um novo grupo (na Maia) e surgiram contactos para o desenvolvimento do projecto em S. João da Madeira.
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projectorios@gmail.com
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